TEMPO EM QUEDA LIVRE


Não gosto do tempo velho.
Não digam que o velho é bom.
Tem experiência, saber adquirido e isso é importante mas, tempo velho é inegavelmente horrível.
E tempo novo?
Para que quero eu tempo novo?
Se não gastar bem o que tenho hoje
amanhã já estará velho.
Amanhã terei outro, novinho em folha,
para fazer dele o que melhor conseguir.
Quando tenho tempo novo começo logo por lhe dar uso.
Desembrulhá-lo com meiguice
Olhá-lo bem nos olhos
Falar-lhe em silêncio
Aconchegá-lo ao peito
Abraçá-lo com força
Dá-lo a quem precisa
Sorrir-lhe com alegria
Escrever-lhe com carinho
Beijá-lo com desejo
Amá-lo incondicionalmente
Se ele for bem usado não se torna velho mas unicamente passado, saudoso
TEMPO NOVO para VIVER

ESTRELA

Apareceu no céu um sinal

uma mão-cheia de brilho e

cinco pontas de esperança

Três Reis sob o véu

de um Mundo por descobrir

foram erguendo o caminho do Redentor

O astro guia abriu a corola

entre cometas e sóis

O Menino sorriu

lançou raízes nos corações

e atirou ao ar ESTRELAS de amor.

Uma é minha, outra é tua

outra é de quem a apanhar.

PONHAM A MESA AO OUTONO

O Outono é todo um sabor de
romã em bagos de ternura
vermelho paixão
Na adega solta-se o cheiro
do mosto intenso
ébrio de esmagada solidão
No celeiro as maçãs verdes
tão diferentes das bochechas
do meu rosto irradiante
No pomar o sumo da tangerina
desmanchada em gomos ácidos
no capricho dos meus lábios
Em mim se cravam os espinhos
do velho castanheiro
a espreitar o lume
O Outono devolveu-me a
melodia da chuva
E uma cascata de folhas
cansadas de verde
tombou no chão
dos meus passos solitários
E nem pés nem mãos
nem olhos
Apenas um rosto
escorrido e húmido.

ESTRELA

Guia ou viajante
Colorida e brilhante
Minúscula ou gigante
Cadente ou caminhante
Às vezes errante
Outras oculta distante
Por vezes irradiante
Muitas outras inconstante
No âmago coração palpitante.

AMARRADA AO MAR


É o azul espelhado
na vastidão inconcreta em que navego.
É o verde pintado
com que a esperança se move em marés de solidão.
É o negro rasgado
que beija cardumes embalados pelo sol.
É o branco desmaiado
de espuma e renda que me cobre os sentidos.
É o translúcido salgado
que me turva o olhar com que traço o horizonte.
Amarrada ao mar
enterro na areia
o sabor do vento
o cheiro do tempo
em que me naufraguei.

TOALHA AZUL

Na toalha ficam as gotas do teu ser
A tua pele sedenta amaciou-lhe as fibras
Em cada dobra está o calor das tuas mãos

O cheiro do alfazema transpira o teu desejo
Atrás da porta pendurado um esgar do teu olhar
Envolvo-me na toalha e sinto-me possuída
Pelo teu corpo que anseia o toque dos meus lábios
.

GAIVOTANDO

Estás ainda nos braços de um anjo
Sonhando voos de gaivota em dia de calmaria
Lanças-te no abismo e rodopias fantasias
Sobrevoas maresias e descobres cada canto do céu
E de repente o sonho desdobra na tua frente
Um cais que tu conheces, onde queres ancorar
Mas as tuas asas implumes não chegam para o alcançar
Acorda desse sono de criança
O mundo… esse está aí para te fazer feliz!

BOLA DE SABÃO

Uma bola de sabão
Voando, poisou suave
naquela mão
Sem sopro, sem aragem,
vagarosamente dançou,
fez uma elipse tonta no ar,
amarfanhou-se, esticou-se,
revirou-se em movimentos
compassados e lentos
e depois de ter sorvido
suaves tragos do elixir
adocicado do arco íris   
soltou-se do cordel...
E a rapariga de cabelos lisos
desgrenhados e escorridos
desventrada de esperança
ali estava de sorriso discreto
esperando o tilintar do pão
no prato de plástico vermelho.
E a rapariga de cabelos negros
despenteada por desilusões
tentava agarrar os sonhos
deitados aos céus
com coragem desmedida
e a esperança de uma nova vida.

(Dedicado a uma amiga)

TRÁGICO

SOMBRAS MIMÉTICAS
ESVOAÇANTE SOLIDÃO
PARAÍSO SONHADO
ANTRO DE ILUSÃO
SÓ O CORTE TE FAZ NAVEGAR
O ESCULPIR DA MÃO TE EMBALA
O FOGO
AMALDIÇOADO
ATRAIÇOA-TE
E ENTÃO PARTES
OU FICAS
EM CINZA
OU PÓ
NO CHÃO.

SINAL

Lava-me o olhar
Mas deixa ficar o céu
para que me empreste o azul
Preciso acender uma pérola
Deixa ficar uma estrela
quero enfeitar-me no espelho
derramar brilho e amor
Deixa um sinal
Vou fechar os olhos
descansar as lágrimas
no sorriso dos lábios
Lava-me o olhar e vamos amanhecer.

COMPOR, DISPOR, SOBREPOR


RASGUEI PEDAÇOS DE AZUL
COMPUS, DISPUS, SOBREPUS
CONSTRUÍ UM NOVO CÉU.

CORTEI BOLAS DE ALGODÃO
DISPUS, COMPUS, SOBREPUS
FORMEI NUVENS EM CACHÃO.

AMASSEI PEPITAS DE OURO
SOBREPUS, DISPUS, COMPUS
FIZ DO SOL O MEU TESOURO.

NESTE CONSTANTE PLANEAR

NOVO CÉU,
NUVENS LEVES,
SOL BRILHANTE

COMPOR DISPOR SOBREPOR

MINHA VIDA PARA TE AMAR.

Das SURPRESAS dos CAMINHOS

Na senda do destino
Arqueia-se o caminho
Com curvas apertadas
De estranho contorno
Onde bailam pegadas
De solas delgadas
De passos firmes
Nunca ali pisados
Trilhos desfazados
Hesitantes de glória
Tropeços de história
Terra queimada
Barrentos de pó
Enlameados
Sonhos apagados
Desconhecidos
Amargurados
Novelos enredados
Caminhos cruzados.

Das SURPRESAS do VERÃO

Olho a cesta de fruta vazia 
Com o cheiro colorido no olhar
E o jeito de quem percorre o pomar
Saltitando de árvore em árvore
Colhendo aqui, comendo acolá.
Desmancho a tangerina em gomos
Trinco a brilhante maçã verde
Penduro cerejas na roda da orelha
Molho os lábios com o vermelho morango
E deixo escorrer pela mão
O doce sumo do pêssego.
De volta ao pomar
Sinto o calor de Verão 
no Sol que amadurece no horizonte.

Das SURPRESAS de PRIMAVERA

Penetradas com dedos
as montanhas
brotaram um rio
no calor da mão estendida.
Semeada a planície
anunciaram flores
e a Primavera
brotou nos lábios.
Surpresa constante.

AGUARELA DE CRIANÇAS

Ser CRIANÇA nesta vida
É tudo o que há de mais belo
Ver o Mundo colorido
E o sol sempre amarelo.

Pintar o céu de azul
Com um pincel de magia
E no verde forte do mar
Um barco de fantasia.

Usar a pureza do branco
Para colorir uma flor
E ao olhar o arco-íris
Enchê-lo de muita cor.

Com aguarela vermelha
Preencher um coração
Espreitar com olhos doces
E negros como um tição.

Viver a vida inteira
De uma forma curiosa
Sorrir com muita alegria
Sonhando em cor-de-rosa.

Pular, correr e saltar
Brincar com imaginação
Ganhar asas, esvoaçar
Como se fosse um balão.

Inventar contos perfeitos
Toda a vida num segundo
Derramar latas de tinta
Para embelezar o Mundo.

E se alguém não souber
Como isto tudo se faz
Aprendam com as crianças
São hinos de AMOR e PAZ.

PÉS DESCALÇOS

Demorei o meu olhar
No pisar de muitas solas
Sabrina de lacinho borboleta
Sapato de atacador bem engraxado
Bota de montar com espora
Chinela de quarto ainda ensonada
Soca de madeira grossa em pé de pescador
Pantufa de aquecer Invernos
Croc sinteticamente colorida
Mocassin de camurça camel
Sapato de vela sem chama
Ténis de raqueta e meia branca
Sandália de dedo à vista
Mule de calcanhar à mostra
Sapatilha de marca da Feira do Relógio
Chanato velho e bolorento
All star já sem brilho mas com estrela
Scarpin de toilette em qualquer festa
Havaiana a desvendar joanetes brasileiros
Chanca grosseira e em desuso
Botim de salto torto e gáspeas descosidas
Alpercata de lona suja e corda desfeita
Stilleto de bico ousado
Sapato de verniz pronto para a valsa
Tairoca em pé de tricana
Babucha das mil e uma noites
Ortopédico para quem sofre
Bailarina para quem se aguenta em pontas
Bota militar sem combate
Peep toe de pele de cobra e plataforma
Tamanco de couro rústico
Sapato de meias solas e protectores
Despi-me de sapatos
Descansei os pés na terra firme.

TEMPO

Se o tempo se escondesse
no canto da saudade
Se os ponteiros bandarilhassem
os quartos e as meias
Se no redondel
se espalhassem
indistinta e caoticamente
segundos, minutos e horas
Faria do tempo
um tempo de silêncios
segredos, sorrisos
E media o tempo
num relógio de SOL. 

CADEIRA

 No espelho do toucador te revias
aconchegando coxas esbeltas
enfeitando colos de jóias purpúreas
alisando cabelos soltos
apertando espartilhos de paixão.
Almas cegas falsearam-te a existência.
Hoje olho-te desfeita decoração.
Se mãos hábeis te amassem serias de coração
cadeira para uma Rainha.

BATALHA

Memória de tempos
enigma aprisionado
templo de vitória
centelha de sol
doura-te a branca renda
gótico de esperança
promessa de guerra
silêncio de paz.

MÃE

Tu és a força de água fresca
que dá de beber à minha sede
Tu és a coragem de amor à solta
que transborda os meus olhos de céu
Tu és o sorriso de boca franca
que adoça os meus lábios de cereja
Tu és a chuva de palavras de oiro
que envolve as minhas mãos de sol
Tu mãe, és o meu tudo e o meu todo.

LIBERDADE

De esperança se falar
De mesmo sem voz cantar
De no vento madrugar
De ter o mar a brilhar
De cheirar o sol n’olhar
De p’la janela voar
De que flores me enfeitar
De nas estrelas sonhar
De na lua navegar
De o céu incendiar
Com olhos de realidade
Conquista de eternidade
Ser verdade a liberdade.

GESTOS QUE O HOMEM NÃO LÊ

As águas nascidas
límpidas das entranhas da terra
o Homem as turvou.
As montanhas arborizadas
fontes de verde sombra e puro ar
o Homem as queimou.
Os campos semeados
férteis de pão e papoilas
o Homem os empestou.
Os céus difusos
brilhantes de anil e sol
toldaram-se de nuvem e cinza
o vulcão cuspiu o fogo
E no julgamento da vida
Inocente só a Natureza
No banco dos réus o Homem
Sentença: CULPADO



PRINCIPEZINHO


Conheci-te nas palavras de Saint- Exupéry…
Sonhei-te em noites altas e brilhantes
Com a lua deitada num berço de estrelas.
Concebi-te num leito de alegria e paixão
Envolta na sensualidade de linho e alfazema.
Esperei-te com a beleza de uma flor e o calor
Do sol caindo em tarde de quase Primavera.
Embalei-te no meu seio de meigo e doce mel
Afagando o teu olhar com os meus lábios.
Ensinei-te a crescer, rasgar o medo e ir além
Sofrendo ausências de manhãs sem te acordar.
Cresceste em valores sólidos de homem livre
Sendo o alicerce da minha casa em terramoto.
E és das histórias que te contava ao adormecer
Não a memória mas o real e verdadeiro
Meu filho tu és o meu Principezinho.

VOLTAR ÀS NUVENS

Por vezes apetece-me voltar às nuvens
andar a vê-las com as mãos
Ontem li-as, hoje escrevi-as
São leques de tempo espelhadas no espaço
No seu campo fértil são restos de baús
para se guardarem épocas 
locais e memórias
e onde deixo que habitem
fadas ou fantasmas, demónios ou deuses
Nelas apalpo experiências alucinantes e
guardo vestígios de sobrenatural.
Nuvens são exalações do meu pensamento
vaporizadas no azul do Olimpo
onde gosto de voltar
sempre que o olhar me dá tempo.

CONVERSAS COM ESTRELAS


Sentei-me na varanda do serão
Para ouvir a minha noite passar
A lua acendeu uma constelação
E eu embalada pus-me a vaguear

Ouvi estrelas contarem em segredos
Histórias de fadas, duendes e dragões
De moiras encantadas seus degredos
Almas tristes e desfeitos corações

Castelos com ameias desmoronadas
Princesas bem nascidas, mal fadadas
Reis com coroa mas sem terem um reinado

Contos sem fim mas o princípio estava ali
E de tudo o que escutei só percebi
Não se ouvem estrelas, sem se ter um dia amado.

CANTATA DE GRILOS

Oiço uma orquestra de grilos
Não sei se cantam
Se me encantam
Griiiiii griiiiii griiiiiii
Grilo pequenino no teu buraquinho
Como enches o meu olhar
Vestido de smoking e asas a vibrar
Consegues fazer-me sonhar
Num salão de baile me estou a imaginar
Nos braços de alguém
Que tal como eu    Ao ouvir o teu trinar
Também se deixaria encantar
E nos seus passos me iria levar
Contra o seu peito me aconchegar
E bailar   rodopiar   cantar
Ai grilinho   griiiiii   griiiii
Porque é que eu não sei dançar?

DOMINGO DE PÁSCOA

(Ressureição de Cristo - Gregório Lopes - Museu Nacional de Arte Antiga)

A TODOS OS MEUS AMIGOS DESEJO
PÁSCOA FELIZ

LUMEN CHRISTI

PÁSCOA - Palavra de origem Hebraica que significa passagem.
A celebração Cristã simboliza a transição da morte para a vida.
A luz de Jesus Cristo gloriosamente ressuscitado nos dissipe as trevas do coração e do espírito.

SEXTA-FEIRA da PAIXÃO DO SENHOR 15h A Hora de Noa

(Mosteiro dos Jerónimos)
Planearam Sua morte em silêncio
Assustaram com gritos o povo
E num lenho pregaram Seu corpo
À Hora de Noa o Senhor morreu

Por nosso amor
Morreu O Senhor
Numa cruz
Morreu O Senhor
Recomendou
Dar a vida como irmãos
Em sinal de amor

É a hora de Noa na terra
As sirenes de alarme soaram
Mas ninguém se decide a acordar
E o meu Irmão chora
E o meu Irmão morre
E o clamor da Sua voz não nos dói
E o meu Irmão morre

É a Hora de Noa na terra
É a hora da fome e da morte
É a hora do ódio e da guerra
É a Hora de Noa
Quando sofre o meu povo
Quando cresce a dor e o engano
Quando falta o Amor
(Cântico)

TRÍDUO PASCAL - CEIA DO SENHOR

       (Capela Sistina, Cósimo Rosselli, Última Ceia)
Primeira Epístola do Apóstolo São Paulo aos Coríntios

Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: «Isto é o Meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.» Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no Meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim.» Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.

E AS FLORES

De veludo foram embrulhados vossos véus
Mãos sem lâmina vos recortaram os estames
Condão de fada vos salpicou
desse manjar de insectos
E o tintureiro derramou sobre vós a paleta
inesgotável
Em vós caminha a seiva da alegria
e a sombra da beleza
Radiosas finas esbeltas gentis mimosas
abençoadas
O orvalho vos beija na quietude da alvorada.
A aragem me coroa do vosso aroma
E aguardo a lua para me deitar em cama de pétalas
E sonhar estrelas como quem colhe flores
no espelho.

ECOS NA FALÉSIA

Ergues-te do esplendor das águas
içando espadas ao limite do céu
Escorrega em ti a boca do vento
despenteando a nuca alva de cada onda
Espelhas o lençol em que se enrosca
o sol de cada tarde até adormecer
Escondes nas entranhas das grutas
ninhos de peixes miméticos
Em teu precipício deixo tombar o meu olhar
para que se demore na vastidão
alcantilado recôndito e calmo
Aí arribada reclamo a tua protecção
com palavras engolidas pelo mar
que mas devolve em ecos de esperança.

DESISTIR

Desistir
É deitar a coragem na sarjeta da vida
É trair a força activa da nossa voz
É alimentar enigmas de solidão
É decepar o sonho que derramamos no papel
É morrer nas teias do inimigo
É desperdiçar o nunca e o talvez
Desistir? Não!
Parar? Porque não!
Persistir? Porque sim!
Continuar? Sempre!

RUÍNAS

Oiço os gritos lancinantes das ruínas
que me arrastam para o abismo
do silêncio
e entre o pó da pedra
já transfigurada
encontro um leito
em que me prostro e adormeço.
Não sei levar nos ombros a solidão
errante num labirinto
de lágrimas
e vozes díssonas.
Corro na linha
frisada dos beirais e só encontro
berços ocos donde não esvoaçam Primaveras.