DIA MUNDIAL da MULHER

Gargalhadas são línguas de papoilas
a esvoaçarem
num campo de trigo maduro
onde tu foste colher
espigas douradas
e malmequeres brancos 
para enfeitar
o meu regaço de Mulher.

FADO


Fado é sina
É sentimento
Ilusão ou realidade
Saudade ou felicidade.
Fado é dor
É melancolia
Pensamento proibido
Desejo solto ou reprimido.
Fado é Lisboa
Das sete colinas
Santos Populares
Tejo, vielas e varinas.
Fado é namoro
É encanto
Lembrança de uma traição
Chorar de tristeza e emoção.
Fado é ternura
É doçura
Mel e rosmaninho
Loucura em lençol de linho.
Fado é som
Delirante
Da guitarra que chora e sente
E o trinado da viola persistente.
Fado é Coimbra
Mondego e Choupal
Capa negra e batina
Luar e uma serenata estudantina.
Fado é garra
É tradição
Noite de touros e cavalgada
Coragem de forcado e ovação.
Fado é alma
Amor e paixão
Se estiverem dois seres
Unidos para sempre
Num só coração.

SUBIR

Há uma escada em cada esquina
alta, íngreme, aguda
Há degraus desejando
a subtileza do andar
Há um chão sem memória
onde os passos caem
e os pés se demoram
calejados de esperar dias
e céus de luas adormecidas
Há pedras polidas de silêncios
Há ferros com negrume e óxido
Há uma escada que desce
e tantos degraus por subir.

PINGO DE CHUVA

Choveu    
                      Amanheceu
                      Entardeceu
                      Anoiteceu
Choveu    
                 Choveu    
Pingo    
             Pingo
                     Pingou
Pingou    
             Pingou
                       Molhou
Molhou     
             Molhou
                        Encharcou
Encharcou    
             Encharcou                      
                            Lavou

Choveu     Choveu     Choveu


OCEANO DE EMOÇÕES

NO MEU SONHO TU ÉS UM RIO
NA NASCENTE DA MINHA ALMA
DEITO-ME NO LENÇOL DO TEU LEITO
EMBALAM-ME AS CURVAS DO TEU CAUDAL
DEIXO-ME LEVAR PELAS TUAS ÁGUAS
POR CORRERIAS ENTRE PENHASCOS
DESPENHO-ME NAS TUAS CASCATAS
ATRAVESSO AS TUAS MARGENS
ENFIM AVISTAMOS A FOZ
 E  SENTIMO-NOS ALAGADOS
NÃO TARDA IREMOS TRANSBORDAR
NAS ÁGUAS ANSIOSAS DESTE MAR
E ENTÃO SEREMOS UM SÓ OCEANO

TEMPO EM QUEDA LIVRE


Não gosto do tempo velho.
Não digam que o velho é bom.
Tem experiência, saber adquirido e isso é importante mas, tempo velho é inegavelmente horrível.
E tempo novo?
Para que quero eu tempo novo?
Se não gastar bem o que tenho hoje
amanhã já estará velho.
Amanhã terei outro, novinho em folha,
para fazer dele o que melhor conseguir.
Quando tenho tempo novo começo logo por lhe dar uso.
Desembrulhá-lo com meiguice
Olhá-lo bem nos olhos
Falar-lhe em silêncio
Aconchegá-lo ao peito
Abraçá-lo com força
Dá-lo a quem precisa
Sorrir-lhe com alegria
Escrever-lhe com carinho
Beijá-lo com desejo
Amá-lo incondicionalmente
Se ele for bem usado não se torna velho mas unicamente passado, saudoso
TEMPO NOVO para VIVER

ESTRELA

Apareceu no céu um sinal

uma mão-cheia de brilho e

cinco pontas de esperança

Três Reis sob o véu

de um Mundo por descobrir

foram erguendo o caminho do Redentor

O astro guia abriu a corola

entre cometas e sóis

O Menino sorriu

lançou raízes nos corações

e atirou ao ar ESTRELAS de amor.

Uma é minha, outra é tua

outra é de quem a apanhar.

PONHAM A MESA AO OUTONO

O Outono é todo um sabor de
romã em bagos de ternura
vermelho paixão
Na adega solta-se o cheiro
do mosto intenso
ébrio de esmagada solidão
No celeiro as maçãs verdes
tão diferentes das bochechas
do meu rosto irradiante
No pomar o sumo da tangerina
desmanchada em gomos ácidos
no capricho dos meus lábios
Em mim se cravam os espinhos
do velho castanheiro
a espreitar o lume
O Outono devolveu-me a
melodia da chuva
E uma cascata de folhas
cansadas de verde
tombou no chão
dos meus passos solitários
E nem pés nem mãos
nem olhos
Apenas um rosto
escorrido e húmido.

ESTRELA

Guia ou viajante
Colorida e brilhante
Minúscula ou gigante
Cadente ou caminhante
Às vezes errante
Outras oculta distante
Por vezes irradiante
Muitas outras inconstante
No âmago coração palpitante.

AMARRADA AO MAR


É o azul espelhado
na vastidão inconcreta em que navego.
É o verde pintado
com que a esperança se move em marés de solidão.
É o negro rasgado
que beija cardumes embalados pelo sol.
É o branco desmaiado
de espuma e renda que me cobre os sentidos.
É o translúcido salgado
que me turva o olhar com que traço o horizonte.
Amarrada ao mar
enterro na areia
o sabor do vento
o cheiro do tempo
em que me naufraguei.